Quando conheci o Chico Castro, nosso papo “rápido” pra definir como seria o ensaio levou duas longas e boas horas. O Chico tem uma obra incrível e dá vontade de conversar por dias a fio. Sabia exatamente o que queria pras nossas fotos: cenas dramáticas inspiradas em Caravaggio e outros renascentistas. Foi a primeira oportunidade de convocar mais modelos pra um ensaio coletivo.

O Rodolfo é meu marido e cúmplice desde o início do projeto. Rony é ele mesmo um fotógrafo incrivelmente sensível que veio visitar São Paulo e se hospedou na minha casa por uma semana. Andre Labate é um amigo que também vinha explorando o nu como modelo e, assim como Rony, estava ansioso pra participar, ao meu convite. No estúdio improvisado na casa de um amigo, o quadro limitado que nós quatro tínhamos para trabalhar forçou rapidamente a nossa intimidade e os quatro corpos passaram prontamente a ocupar o mesmo lugar no espaço.

Chico Castro sabia exatamente o que queria do ensaio. Na primeira parte do ensaio, chamada simplesmente de “Nós”, tensão. Pra essa segunda parte, violência. E o chamamos “Carne”. Mas a força e a crueza das imagens contrasta com o estado relaxado em que estávamos durante todo o ensaio. O making-of foi transmitido ao vivo pelo Periscope e assistido por mais de 16 mil pessoas.

Nós (Carne) por Chico Castro

Nós (Carne) por Chico Castro

Nós (Carne) por Chico Castro Nós (Carne) por Chico Castro Nós (Carne) por Chico Castro Nós (Carne) por Chico Castro Nós (Carne) por Chico Castro Nós (Carne) por Chico Castro

“Não sei dizer ao certo quando começou minha paixão pelo nu. A referência que me vem à mente é meu projeto de conclusão de um curso que fiz em 2013, em São Paulo, que nomeei Árvore da Vida. A finalidade era retratar membros da minha própria família, da qual eu não era tão próximo como gostaria. Usei a fotografia deliberadamente como desculpa para uma reaproximação, um resgate. Esse resgate da intimidade fluiu tão bem entre nós que quando me dei conta, minhas tias, algumas com mais de 60 anos, estavam posando seminuas para mim. A partir daí, vim sentindo cada vez mais vontade de pedir aos meus retratados que fossem além da roupa, entrando em um terreno desconhecido mas familiar, movediço, quente, aconchegante. Lembro de pedir a um colega do curso, que é policial, que posasse sem camisa durante um exercício de retratos, e ele o fez. Hoje em dia, em meus projetos autorais, vejo modelos vestidos e sinto estar olhando para uma paisagem com potencial para ser um jardim verdejante, mas encoberta por carros e prédios que atrapalham a visão do que está por trás. Meus projetos não partem de pesquisas metodológicas com objetivos precisos. Possuem apenas começo e meio. Talvez venham de um aglomerado de coisas que vivi, que gostaria de viver ou que tenha vivido mas não lembre. Quando eu olho um trabalho pronto, vejo mais seu processo, o que vivi e aprendi ao realizá-lo e os momentos que vão ficar gravados na minha memória e na das pessoas fotografadas. Deixo o espectador decidir para onde quer ir quando olha minhas imagens, lembrando que só há dois caminhos, Amor ou Dor.”

— Chico Castro

Nós (Carne) por Chico Castro

Em tempo: o Chico Castro vai dar uma palestra gratuita chamada ‘Desfragmentando o Nu Masculino’, no dia 4/Dez/2016, das 10h30 às 12h, no âmbito do ciclo “Fotografia do Corpo: do Sagrado ao Erótico”, do VivaRua Cultural, no Armazém da Cidade, Rua Medeiros de Albuquerque, 270, Vila Madalena, São Paulo. É preciso se inscrever (gratuitamente) pelo site do VivaRua.

Já nos dias 10 e 11 de Dezembro, o tema da palestra se desdobra em um workshop que terá a minha participação e que abordará os diversos desafios e bloqueios que ainda hoje se colocam a quem se propõe a explorar o corpo masculino pela fotografia. Preconceitos, tabus, medos, vergonhas, culpas e censuras não só impostos pela sociedade, mas por vezes pelo próprio fotógrafo a si mesmo. O workshop será restrito a maiores de 18 anos com noções básicas de fotografia e as vagas são limitadas a apenas 10 participantes. A inscrição para o workshop está aberta e também se dá pelo site do VivaRua.

Abordagem, contato, posicionamento e composição serão alguns dos temas que serão explorados no workshop prático que visa, sobretudo, proporcionar aos participantes a vivência da relação do humano-fotógrafo com a nudez como conceito e com a nudez frontal do humano-modelo. Eu participarei da palestra do dia 4 e do workshop no dia 11 como depoente e como modelo para a prática dos participantes.